CIDADE RESÍDUO

Um Ensaio Fotográfico por Eduardo Azevedo

“Narrativas fazem-nos entender. Fotografias fazem algo a mais: elas nos assombram."
“Narratives can make us understand. Photographs do something else: they haunt us.”

Susan Sontag (1).
Diante da dor dos outros
(Regarding the pain of others) - 2003
(Minha Tradução)

Resíduo: O que resta, sobra, remanesce; restante, resto, remanescente.

Esse ensaio fotográfico foi inspirado pelos estudos dos arquitetos e teóricos Juhani Pallasma (2) e Rem Koolhaas (3) sobre o que resta da cidade após a globalização, sua hiper funcionalização e transformação em mercadoria pela especulação imobiliária. Ou melhor, sobre uma cidade se tornou o que resta. Um simples fio condutor para os acontecimentos e não o seu palco.

Campo Grande, infelizmente, é um grande exemplar de Cidade Resíduo, onde o Direito ao Uso, como exposto pelo artigo, de mesmo nome, de Paulo Domingos, não é valorizado e discutido. O espaço público é encarado como trânsito, propriedade privada do estado ou terra de ninguém. Como se fosse um limbo, um corredor, um espaço entre, um resto.

Essas fotos foram tiradas no final de 2019, em um dia que sai pela cidade acompanhado de minha câmera. Elas me lembram uma cidade-fantasma, uma terra arrasada, povoada por uma espécie de toupeira pelada que habita tocas de concreto refrigeradas. Ao olhar para elas fiquei surpreso por descobrir como é fácil tirar fotos pela cidade, sem capturar sequer uma dessas toupeiras.

Espero que essas imagens ilustrem o que foi argumentado por Paulo e que de alguma forma “assombrem” quem as vê. Não no sentindo aterrorizador, mas de um constante relembrar de como o espaço público sem o usuário torna-se resíduo.

(1) Escritora americana, foi uma das principais vozes da estética na segunda metade do século XX e início do XXI.
(2) Arquiteto e professor de Arquitetura finlandês. Conhecido pelo livro "Os olhos da pele", aborda constantemente temas voltados a exploração da faceta subjetiva na arquitetura.
(3) Arquiteto, Urbanista e teórico neerlandês. Seu trabalho teórico frequentemente foca em uma discussão, quase escatológica, sobre o declínio do papel do arquiteto.

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Eduardo Azevedo
Mais conhecido como "Dudu". Desenha desde que se entende por gente.Quase formado em Arquitetura e Urbanismo pela UFMS, nunca quis ser arquiteto. Encontrou, porém, no espaço urbano um jeito de entender o mundo. No Coletivo Labor é responsável pela direção de criação e comunicação visual. Também cuida da organização e curadoria do Co-Laboratório e de vez em quando dá uns pitacos no Co-Fab.
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