Desamor e sobrevivência

Por Vitória dos Reis

Em tempos de crise dizem-nos “não pense na crise, trabalhe!”. No contexto de muitas mulheres, dizem-nos “releve as atitudes dele, o amor precisa prevalecer...”.
Em tempos de pandemia, o que é considerado amor?

“Fiquem em casa” dizem o prefeito, a mensagem encaminhada pelo Whatsapp, seu professor, o médico. “Que casa?” uma mulher se questiona. Há alguns meses, o portal G1 noticiou que no Rio de Janeiro os casos de violência doméstica cresceram em torno de 50%, com a pandemia. Campo Grande está em 3º lugar no ranking nacional de violência contra a mulher. Onde estão nossos lares? Direitos: suspensão.

Jane Austen (1) nos sensibiliza há tempos sobre como um casamento podia ser sinônimo de ascensão social feminina. Atualmente, outras condições são previstas para essa ascensão. Não necessitamos de um marido para garantir heranças, como previsto até século XX. Estabilidade financeira? Muitas de nós já se autossustentam. Uma pista interessante, pois até 58 anos atrás mulheres só trabalhavam com a permissão de um marido – sem falar (mas já falando) sobre as que já trabalhavam desde a infância. Maria da Penha lutou durante 19 anos de sua vida para que o país tivesse uma lei de proteção às mulheres.
Ainda assim, a quem esta lei protege?

Em nossa realidade, a suspensão de direitos ainda é uma realidade. Discursos que erradicam nossa complexidade e nos constrangem em locais de merecimento. Até quando? Precisamos “mudar as cores” de nossas análises. A quem a sobrevivência recai como pauta diária de existência?
Fazendo um link com texto de Felipe (2), pensar o Homem Invisível aqui pode ser bastante ilustrativo. Poucos acreditam na impossibilidade do não-amor quando se tem um homem rico, inteligente e completamente interessante ao seu lado. Ainda hoje, isso ainda nos é ensinado, direta ou indiretamente. Barbara Białowąs³ registrou isso muito bem em seu longa, 365 days, para a Netflix.
Muito fazemos em nome do amor, tema relevante e muito mais complexo cujas palavras aqui, são pequenas demais. Esse não é texto sobre amor. Mas o amor ainda é palavra-chave para se tentar compreender uma mulher. Desfigurações em nome de controle, em nome de hostilidade
Sobre a manutenção de um lar, os cuidados prestados a este e seus moradores: qual a primeira imagem que nos vem à mente? Mulheres: as guardiãs e protetoras do lar. Isso é o que a religião motiva; a propaganda de fraldas e produtos de limpeza promove. Isso não se dá à toa. Silvia Federici (4) chamará isso de trabalho não remunerado. Simone de Beauvior (5) reconhece como uma espécie de vocação imposta. Ao fim, como mulheres tornam-se aquilo que elas são?

Parece que o não-amor torna-se temática essencial para compreendermos quem somos em nossa realidade atual. Quem sempre acaba mais afetado pelo não-amor em nossos tempos? Quem são as mulheres solteiras, que não vivem em união estável, no Brasil? Quem são as mães que cuidam sozinhas de seus filhos? Como o amor alcança a velhice, em nossos tempos? Ana Cláudia Pacheco (6) já nos apontou algumas dessas características, em 2013. A mulher negra é a protagonista. E isso não quer dizer que essas mulheres não possam nunca ter experimentado o amor, esse texto não é uma problematização moral sobre o que é o amor.

O amor tomamos como uma categoria politizada. Que delinea corpos passíveis de admiração, comoção, empatia, afeto. E coloca em outro espaço corpos categorizados como passíveis de exclusão, não admiração, desamor.

A intimidade de um desamor como ponto crucial para a compreensão e o desenvolvimento de novas narrativas: quais revoluções vislumbramos em nome da transgressão? Quais usos fazemos dessa violência? Há quem diga que o amor é uma espécie de motor social. E quão aconchegante seria pensar na legitimação de uma intimidade, em nome do amor.

O neoliberalismo endossa que a pandemia une entes familiares, fortifica os lares e a intimidade; endossa às mulheres sua função mais “natural, primordial, institiva”: o amor absoluto em nome do bem-estar de algo sagrado, através das palavras, gestos, comportamentos e outras ações no seio familiar. A violência se efetua e se legitima em nome do amor.
No entanto, quem consegue viver sem amor?

(1) Escritora inglesa. Nasceu em 16 de dezembro de 1775 e faleceu em 18 de julho de 1817. Seus romances voltavam-se à vida burguesa britânica e tinham a ironia como ferramenta essencial para a descrição de personagens e outros problemas vigentes ao seu período.
(2) Felipe Takei, integrante da Co-labor e autor do texto O Homem Invisível, original desta plataforma.
(3) Polonesa e diretora de cinema. Nasceu em agosto de 1978.
(4) Professora, escritora e ativista italiana radicada nos Estados Unidos. Nascida em 1942.
(5) Escritora e filósofa existencialista. Nasceu na França, em janeiro de 1908 e faleceu em abril de 1986.
(6) Professora e pesquisadora brasileira sobre o tema “Mulher Negra, Afetividade, Gênero, Raça e solidão”.

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Vitória dos Reis
Quase psicóloga, leitora assídua quando não entediada. Insatisfeita com uma cidade sem fluxos, interessa-se na construção de outros mundos possíveis. Responsável pela gestão, curadoria e pesquisas no Co-laboratório e Co-laboração.
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