Discrição

O Coletivo Labor apresenta sua primeira colaboração!
Um conto local, por Lívia Tinoco.

Para a autora, Discrição "é um exercício interessante e divertido tentar inverter algumas lógicas simples. Há 33 anos um pó brilhante muito bonito foi a tragédia de vários goianos, alguns animais com cor esplendorosa também escondem um grande veneno por trás da atenção que chamam. Embora não seja de se desconfiar que coisas belas nos trazem perigo, seria ainda mais difícil suspeitar de alguma coisa que nos rodeia diariamente se camuflando tão bem a um cenário que nada parece trazer de novo."

Leia o conto abaixo!

Discrição

Já morava naquela casa havia 8 anos. O mercado ficava a duas quadras de distância e, mesmo que não tivesse os preços mais baratos da cidade, era um belo socorro nos momentos que faltava algum ingrediente do almoço ou na iminência do fim do único sabonete que restava no banheiro. Nesses anos que se passaram e se passavam foram inúmeras e incontáveis, porque ninguém é capaz de dizer quantas vezes fez qualquer coisa frequente num intervalo maior que três ou quatro semanas.

No caminho havia um gramado com um grande flamboyant, árvore de estatura não muito alta, com a copa alta e um pouco plana e as folhas ofuscadas pelo quase infinito de flores vermelhas. Era uma árvore realmente linda. Belo, era isso que a árvore representava para ele, mesmo que não soubesse claramente em seu pensamento, a flamboyant no caminho do mercado trazia em si o conceito de Belo que parte das correntes filosóficas ocidentais buscavam.

Mas na última vez que ele andou até o mercado não existia mais uma árvore sublime de flores vermelhas. No mesmo lugar que antes era tomado pela sombra de uma copa espaçosa, agora estava um toco de cinquenta centímetros de altura impassível sob o sol do meio-dia.

Um breve luto seguido por uma tristeza estável foram os sentimentos até chegar ao mercado. Na volta, ele passou muito perto do tronco e reparou que existiam muitas coisas em volta de onde existe a árvore sublime, a parede colorida da casa de trás, as placas de corte de cabelo e 30 reais para costurar barra de calça em lugares que a árvore não chegava a esconder, mas que eram ofuscadas e ele sequer sabia desde quando existiam lá, mas não era recentes visto que essas placas já estavam desbotadas.

Com a mão que não segurava ele tocou com o tronco. Engraçado só ter tido essa vontade agora que a flamboyant não existia mais e restava somente uma versão de um pedaço seu. Até então, nunca tinha tirado os pés da calçada para pisar sobre a terra que era o terreno de seu objeto de admiração. Ao se afastar do tronco rumo a calçada pisou em algo muito duro.

Quase não viu a pedra em que pisou. Perto do tronco, algumas pedras estavam espalhadas, mas a que foi pisada era exatamente da cor do solo, foi preciso abaixar e pegar para entender seu formato perfeitamente redondo. Era pequena e extremamente dura.

Quando chegou em casa, ele foi fazer o almoço e, enquanto comia, a TV mostrou a retrospectiva do incidente do césio-137 em Goiás, que estava fazendo anos na data. Enquanto os dentes amassavam um pedaço de cenoura chegou a pensar “parece que esse césio era realmente e muito bonito” e lembrou da pequena esfera maciça de terra que encontrou um mais cedo e deixou perto da ruína de sua árvore, por parecer ser o verdadeiro oposto da beleza.

Mastigando sem tirar os olhos da TV, ouviu o som de talher caindo e instintivamente olhou para o chão. Caído sobre o pisava estava um garfo com cinzas ao seu redor. No lugar da mão que tocou a bola terrosa existia o que parecia ser uns ossos melados com algo preto e uma espécie de vareta agora onde antes era um antebraço. O ombro era cinza e derretia e secava em segundos. Assim, não demorou para que restassem somente os dentes.

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Lívia Tinoco
Sou técnica em informática mas não trabalho com isso. Comecei a escrever quando descobri os contos de histórias extraordinárias. Já fui embora do Brasil, mas precisei deixar a complicada vida de imigrante e voltar. Agora curso Arquitetura e Urbanismo pela UFMS. Um dia eu consegui fazer uma piada.
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