Estética de Quarentena

Psicologismo das redes sociais e saúde mental
Por Vitória dos Reis

Estética da quarentena e o psicologismo das redes sociais: o que será do futuro? Claro. Se hoje eu me exercitar (em casa), fizer dieta e conseguir manter uma boa rotina de sono, as chances de que eu perca alguns quilos e medidas tá no papo. Se hoje eu investir em minha carreira comprando e fazendo cursos online, assistindo lives, lendo livros e estudando, as chances de passar em um vestibular, em um programa de mestrado ou conseguir a vaga de um concurso público aumentam. Mas, o que acontece quando, apesar de todos os esforços, a meta não é atingida?

É ai que a psicologia (mas não somente ela) coloca-se com todas as suas técnicas de escuta do INdivíduo, do INterior do sujeito; com INvestimentos no INtelecto e no INconsciente (1). “Talvez esse seu problema, sua baixa-autoestima, sua falta de vontade seja porque… (insira qualquer hipótese de trauma que caiba como justificativa para ações no presente)”.

Evidentemente, já tem sido mais do que discutido nos últimos 200 anos - no mínimo - que os problemas que enfrentamos em nosso passado afetarão nosso presente, em menor ou maior grau. Não estou aqui para debater qualquer veracidade dessas questões. A análise não é esta.

E sim provocar um outro movimento do pensar, propor uma outra lógica. Quem é o brasileiro, do século XXI frente à pandemia? Talvez, algumas pistas: desempregado; com baixo ou nenhum acesso à internet; à espera do auxílio emergencial (isso se já não sofreu com o pedido negado); preocupado com o que comerá amanhã; com filhos sem qualquer condição de aproveitar um ensino remoto… A lista poderia ser maior, mas cada caso tem suas especificidades.

Às pessoas que ainda conseguem ter acesso à internet podem recorrer a algum conteúdo de modalidade audiovisual e remota. No entanto, ainda assim cabe um convite a ampliarmos nosso campo de sensibilidades. Em especial, por que não pensarmos sobre as produções e consumos de auto-ajuda? Todo conhecimento, potencialmente, pode trazer mudanças e revoluções significativas. O que temos produzido?

“O que fazemos hoje dirá respeito ao que nos tornaremos no futuro.” Para quem essa frase direciona-se? Certamente, para o trabalhador assalariado que agradece aos céus, todos os dias, por não perder seu emprego? Ou então, para o vendedor autônomo que, com a crise teve seu trabalho suspenso? Mas não nos enganemos: mesmo que nossos conteúdos direcionem-se às classes médias e altas, que não precisam se preocupar tão profundamente com as crises financeiras do capitalismo e da pandemia, ainda assim, nossas palavras implicam fricções constantes que resultam na consolidação de mundos, subjetividades e hábitos. Pessoas. Não há neutralidade. A menos que seja para a produção de sofrimento, desigualdade, tragédias, “pandemias”.

“Ninguém pode destruir o ferro, mas sua ferrugem pode! Como está seu mindset (2)?”. Talvez posso responder: seu estado é de carne, ossos, solitude, coletivismo, solidarismo, raiva, amor, desespero, esperança, tristeza, abandono. E demais adjetivos que aqui couberem. No entanto, o que implica em nós e no mundo considerarmos a existência à base de metáforas? O que implica considerarmos que os desesperos de ser o que se é e existir onde se existe estão, diretamente, implicados em redes sociais e coletivas complexas e desestratificadas?

Se continuarmos a compreender, interpretar a vida e suas controvérsias desligadas do que as relações de pessoas e computadores tem a oferecer, implicamos na constituição de modos de vida que, muito pouco, tem a falar, propriamente sobre a vida.

No entanto, produzir um modo de existência em que a vida pauta-se na imagem e, até mesmo em mindset (ou mentalidade, traduzindo livremente) é insistir em modalidades que suscitam o desespero de tornar-se aquilo que é espetacularizado. E nada mais viável ao consumo neoliberal do que o espetáculo: a perdição de si em nome da imagem. Creio que o Leandro Assis (3) ilustra isso muito melhor do que qualquer palavra exposta aqui.

O isolamento social é imprescindível. Sua prática? Dispensável para aqueles que não tem condições de pensar na vida daqui a dois, cinco, dez anos, sendo que amanhã podem passar fome. A quem o futuro pertence então? De que forma conseguimos nos agarrar ao futuro e nos apropriarmos dele? Aos profissionais psi: que futuro pretendemos nos apropriar, se ele, por si próprio, é incerto e muito mais perverso? Não é questão de avaliar as potencialidades psíquicas de cada indivíduo. O potencial crítico e prático precisa ir muito além. E assim será, se estivermos comprometidos eticamente com a transformação social, como tange nossa formação.

E sugiro aqui a potência de se pensar mais. Quais/como as implicâncias éticas-estéticas-políticas-sociais estão sendo/estamos imprimindo no cotidiano? Se buscamos mudanças e movimentos, são perguntas que devem ser colocadas. Contudo, como fazê-las em contextos nos quais as respostas são, precisamente, exigidas? Respostas tendem mais a estagnar mundo do que movê-los. Que sejamos movimentos constantes, indomáveis.

(1) Inconsciente: termo utilizado no texto original da Psicanálise, teoria de Sigmund Freud, importante referência na Psiquiatria e, especialmente, na Psicologia em todo o mundo.
(2) Mindset: mentalidade, em tradução livre. Termo muito utilizado dentro do Coaching, no empreendedorismo e em muitas teorias psicológicas. Diz respeito a uma “modalidade mental” da pessoa, ou seja, descreve diferentes mentalidades de pessoas e como a mesma influência suas escolhas pessoais e profissionais.
(3) Leandro Assis: cartunista e ilustrador brasileiro contemporâneo. Possui mais de 700 mil seguidores no Instagram e seu trabalho volta-se para problematizações do cotidiano de nosso país.

COMPARTILHE!
Vitória dos Reis
Quase psicóloga, leitora assídua quando não entediada. Insatisfeita com uma cidade sem fluxos, interessa-se na construção de outros mundos possíveis. Responsável pela gestão, curadoria e pesquisas no Co-laboratório e Co-laboração.
COMENTÁRIOS
Faça seu comentário:




veja também