Minha Fantasia Nada Bela, Sombria e Retorcida

A Linguagem do Desamparo de João Benitez

Por Felipe Takei

Esta é uma reflexão sobre as angústias trazidas por João Benitez nas canções de seu EP de estreia “Cinco Cânticos na Língua do Desamparo”.

Terror é fascinante. Como forma de arte e como forma de flertar e testar os limites de seu próprio medo, sem precisar enfrentar consequências de se expor ao perigo. Já amparo, por sua vez, é substantivo masculino que vive no limbo do desejo e da saturação. Amparo não pressupõe um pedido, muito menos de socorro.

Cap. I: Resinificando a realidade por meio do storytelling na ótica de Deuses Americanos, John Carpenter e do confronto de Billie Eillish com a página “Todo Dia Um Rapper Mentindo”

Graças à globalização e à dublagem brasileira, é imperativo acreditar que monstros são reais se acreditarmos neles (eu sei que a dublagem do trailer de Deuses Americanos fala “Deuses são reais se você acredita neles”, mas eu tenho um ponto e licença poética, obrigado).

Mas monstros são reais. Ponto. E muitas vezes, sua presença não está em cidades fictícias perdidas no meio do nada – outro artifício ficcional que justifica o elemento “cósmico” do horror de, por exemplo, In The Mouth Of Madness (Carpenter, 1994) (1), que assusta enquanto conforta.

“Eu nunca passarei por isso” é um alívio omisso quando passado pelo filtro traumático familiar de The Babadook (2), pela melancolia lírica de Mount Eerie (3) e pelos terrores explorados por João Benitez. O terror nesse caso tornou-se dizer, na língua portuguesa e na língua do desamparo “Meu deus. Eu passei por tudo isso”.

Contar uma história é uma reação química entre a suspensão de descrença do ouvinte e a habilidade do autor em decorar as três paredes de um teatro, de forma que a quarta se materializa filtrando elementos da vida real por meio de uma persona e da ficção.

Dormimos depois de um filme de terror porque sabemos que Howard’s End e seus horrores não existem. Nosso ritmo cardíaco se normaliza assistindo a um filme de ação porque sabemos que (impressionantemente) existe um dublê grande o suficiente pra substituir o The Rock (4) em cenas de ação. Rimos de um vídeo da página Todo Dia Um Rapper Mentindo de 2 segundos do Trunks (5) falando que cometeu um delito porquê... bem... Ele não cometeu um delito mesmo, né?

Contar uma história é aceitar a mentira, é aplaudir um truque de mágica mesmo sabendo que a execução é uma farsa, é dizer que você é o “Bad Guy” (6) mesmo se você for uma menina de classe alta, com 18 anos de idade e que nunca deve ter demonstrado perigo pra nada, fora a carteira dos pais. É entender que ao contrário do que Billie Eillish defendeu numa entrevista ao criticar a postura dos rappers, nem todo minuto da vida de um artista é belo. Muitas vezes há mais momentos sombrios e retorcidos.

E são esses os momentos que João Benitez opta por compartilhar em seu primeiro esforço solo. Contar uma história pode ser uma mentira, desde que não invalide tudo que meus três últimos parágrafos tentaram demonstrar, tirando o véu da impessoalidade para olhar em seus olhos e dizer que saber que monstros não existem não te impede de cobrir sua cabeça com a coberta durante a noite. E que o nascimento é uma catástrofe tão certa quanto a morte.

Cap. II: Em busca de uma definição em Paddington, Dogville e Lupe Fiasco aos sons de Kanye West e Bon Iver

Saber é algo, terminantemente, fatal no mundo narrado por João Benitez. Saber que monstros não existem e rappers brasileiros não comentem crimes (e muito pelo contrário) fascina, enquanto, também, é o primeiro verbo da narrativa em “Entre uma e Outra Catástrofe”, delineando o que pode ser a única certeza do músico: nascemos errado e a única certeza está em escolher sua mentira.

Como diria a Tia Lucy de Paddington (filme que nunca foi dublado no Brasil, aquela versão não existiu e ninguém vai me convencer do contrário) (7): “Se você for gentil e educado, o mundo ficará bem”. E essa é uma forma interessante de sumarizar a experiência que o EP traz, principalmente em momentos traiçoeiramente nostálgicos como “A Angústia É Uma Aranha” e “Lembrança de Uma Viagem” – o mundo pode ser corrigido caso todos decidam, monocraticamente, praticar o bem. Mas não praticam.

E tudo isso só nos lembra: Nascemos errado.

João Benitez conta as mesmas histórias que Paddington contaria caso se mudasse para a vizinhança de Dogville (8), onde a santidade mais real é o nome de santo que precede o nascimento e pessoas não se desenvolvem além daquelas figuras eternizadas pelo próprio estigma: loucos e divindades, ciganos e confrades, putas e militares e aquela cidade de tom sépia que só existe para separar outras duas metrópoles, assim como a textura DIY de seu som distancia Kanye West (9) e Bon Iver (10) pelo despojamento formal da era The Bends (11) do Radiohead.

E tudo isso como uma estratégia para nos lembrar: escolha uma mentira. Vença acreditando na derrota. Porque afinal, nascemos errado.

Ouvir esse EP é como morar na casa ao lado onde Justin Vernon se isolou para compor For Emma, Forever Ago (12), no qual não existe nada fora uma TV que só passa The Farewell (13) (Wang, 2019) e um espelho em que você olha a própria face durante as noites e se pergunta “o que aconteceu?”. Quando você já sabe a resposta: o tédio, a traição pelas figuras protetivas, uma viagem de carro sem retorno, o sentimento amargo de vitória por ter conseguido encontrar uma mentira pra se apegar, nascer errado...

João Benitez é o conjunto habitacional que virou um robô gigante da música vencedora do Grammy “Daydreaming” do rapper Lupe Fiasco, uma “complexidade simples” como descrito pelo The Company Man (14). Uma tentativa de demonstrar conceitos complexos, enquanto toma cuidado pra não pisar em crianças – talvez a coisa mais frágil no imaginário do artista – que sabe que está agindo de maneira diferente da qual designado para agir, porque afinal: nasceu errado.

Cap. III: O que acontece se você jogar “Y Tu Mamá También” no Google Tradutor pra inglês e o filme que mais assisti com minha mãe

Confesso que minha intenção com este capítulo era tratar sobre a visão acerca da figura materna, tema de grande importância para João. Mas, na elaboração do título acabei jogando o do filme “Y Tu Mamá También” (15) no Google tradutor para o inglês e ficou “You Suck Too” (16). E depois de rir por, aproximadamente, 15 minutos, concluo: sim, essa é a forma mais direta de resumir o tema.

Então aproveitarei a deixa pra falar do filme que mais vi com minha mãe na infância: O Diário de Uma Princesa.

No filme estrelado por Anne >Case Comigo< Hathaway, a jovem Mia vive com sua mãe artista que a ensina o valor da simplicidade. O que muda quando sua avó revela que a protagonista faz parte da linha sucessória da família real de um país que acreditei que existia até os 12 anos.

Se O Diário de Uma Princesa me ensinou algo foi a pluralidade de expectativas impostas por figuras maternas. Seja pela visão de uma simples mãe de classe média ou pela visão de uma monarca exigente. A ingenuidade infantil me permitiu acreditar que, assim como a moral do filme leciona, o ideal encontra-se no meio termo entre a simplicidade e a realeza. Mas a ingenuidade tem um fim algum dia, mesmo que demore muito mais que as 2 horas de duração do filme.

Em entrevista com o artista, o mesmo trata a figura materna como agente da violência, personagem tão real quanto a morte na música Death Is Real, do Mount Eerie. Tão reais quanto deveriam.

Em desgosto a proposta de O Diário de Uma Princesa, em que a expectativa é o único vilão, João Benitez justifica a manchete deste ensaio em músicas como Leucemia, Cinzeiro e Lembranças de Uma Viagem (60% dos cânticos) ao confirmar que o vilão é o compilado de personagens responsáveis por suas circunstâncias. Mentiras tão erradas quanto o nascimento. Pessoas e situações que só podem ser descritas pela tradução do Google para “Y Tu Mamá También”.

YOU SUCK TOO.

CONCLUSÃO:

“Receber um convite” é a forma de otimistas lidarem com o que pessimistas chamam de “ansiedade social latente”, a garganta seca que aperta a mão dos calafrios que protagonizam a jornada pela escolha entre ficar ou sair de sua zona de conforto: literalmente o que terei que fazer agora porque escrevi 1700 palavras pra terminar isso tudo com uma frase de efeito de tumblr.

O que há de comum entre uma foto do Coringa do Heath Ledger e Cinco Cânticos na Língua do Desamparo, você me pergunta? Talvez o fato de você conseguir relacionar ambos com a frase “Eu não sou pessimista, sou realista”.

Entretanto, enquanto você encontra a foto do Coringa em qualquer página nas redes sociais que se orgulha de ser hetero (ex. Orgulho de Ser Hétero) - o que já é desconfortável o suficiente, o mundo de João Benitez só é acessado mediante o ouvinte aceitar o seu convite, como toda boa música independente: sorrateira, desde a forma como consumida, até a sensação que evoca por debaixo da epiderme do ouvinte.

Agora cabe apenas a você. Aceita esse convite? Está disposto a questionar se, de fato, você nasceu errado?

REFERÊNCIAS:

(1) CARPENTER, 1994, New Line Cinema. In The Mouth Of Madness. Filme de terror cósmico dirigido por John Carpenter que narra a saga de um detetive contratado para procurar por um escritor desaparecido, sendo levado nessa busca à cidade misteriosa de Howard’s End.
(2) KENT, 2014, Causeway Films. Filme de terror dirigido por Jennifer Kent que narra a vida de uma mãe solteira e seu filho, ambos convivendo com o trauma familiar representado na figura de um bicho-papão chamado Babadook.
(3) Projeto musical do compositor e multi-instrumentista americano Phil Elverum.
(4) Você sabe do que eu estou falando. Ator e ex lutador de WWE americano Dwayne “The Rock” Johnson. Sim, a piada aqui é o fato dele ser GRANDE.
(5) Trapper brasileiro. Sim, se ele está na página “Todo Dia Um Rapper Mentindo” presume-se que ele esteja... Mentindo. Obrigado por comparecerem ao meu TEDxTalks.
(6) Darkroom, 2019. Single da cantora e compositora americana Billie Eillish. Tradução: livre: “Vilão”/”vilã’, “cara mau” (tradução mais literal).
(7) PADDINGTON AND COMPANY. Urso Paddington, criação do escritor inglês Michael Bond. Paddington é um personagem carismático e inocente que tem como traços marcantes a boa educação e a cordialidade.
(8) TRIER, 2003, Filmek AB.
(9) Rapper americano.
(10) Nome artístico do cantor, produtor e multi-instrumentista Justin Vernon.
(11) Parophone, 1995. Álbum musical da banda de rock alternativo Radiohead.
(12) Jagjaguwar, 2017. Álbum musical do rodutor e multi-instrumentista Justin Vernon.
(13) WANG, 2019, Ray Productions. Filme dirigido por Lulu Wang sampleado no instrumental da música Lembranças de Uma Viagem de João Benitez. O filme narra o reencontro de uma descendente de chineses residente nos Estados Unidos voltando à terra natal da família para se reencontrar com sua avó.
(14) Radialista e jornalista americano que cobre, majoritariamente, notícias relacionadas ao mundo do hip-hop.
(15) CUARÓN, Y Tu Mamá También, 2001, 20th Century Fox.
(16) “Você também é um saco” em inglês.

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Felipe Takei
Advogado cujo objetivo é pagar o Letterboxd Pro. Perdi o edital pra entrar no Backstreet Boys. Escrevo pra tirar algo do papel algum dia. Parte do Coletivo Labor, responsável pelo setor jurídico, curador e produtor de conteúdo.
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