Morte, Vida e Vida após
a Morte dos Lugares

(ou para onde os lugares vão depois que eles morrem)

Um ensaio ilustrado sobre as mudanças no espaço urbano

Por Eduardo Azevedo

Jane Jacobs (1) bem nos informou sobre a vida e morte das grandes cidades, porém não me lembro de ouvir alguém falar sobre a vida após a morte dos lugares. Essa discussão está longe de ser tão polêmica como a sobre a vida após a morte humana. Do pó ao pó, ou do pó ao paraíso, não são opções consideráveis para o futuro da existência de um lugar, precisamos aceitar a proposta de que somos seres passageiros e os lugares são esses seres atemporais que são espectadores de nossa breve estada. Sendo assim a proposição de vida após a morte mais aceitável para um lugar é a da reencarnação.

Desde a década de 1950, em Campo Grande, ao fim da rua 14 de julho encontrava-se um armazém: o Vai ou Racha, que já foi mercado e boteco. Esse prédio viveu até os anos de 2010. Pergunto-me se o Vai ou Racha cometeu muitos pecados nesses 60 anos de existência e se existe o Karma na espiritualidade espacial que estou especulando. O fato é que ele morreu e sua vida após a morte não é das mais animadas, o lugar onde ficava o antigo armazém histórico hoje é uma farmácia.

Assim cresce a Cidade Genérica. Termo definido por Rem Koolhaas (2) que tem relação com o avanço da globalização e do mercado sobre a cidade, tornando-a homogênea, previsível e hiperlegível. A cidade que tem aqui e em qualquer outro lugar. Desprovida de pertencimento e história afetiva. Assim, surge um novo corpo, também de alvenaria e concreto, mas dessa vez produzido sem alma, lado ou contexto, uma espécie de zumbi construído. O armazém não era lá o exemplar arquitetônico mais interessante do Art Decô campo-grandense, mas em comparação com as produções pós-arquitetônicas do mercado imobiliário, até esteticamente a vida passada desse lugar faz falta.

Talvez não seja nem um caso de reencarnação. Talvez o armazém tenha se tornado mesmo uma alma penada, ou esteja em uma espécie de purgatório. Presa em um corpo pútrido que, ao mesmo tempo não tem vida, mas se recusa a morrer. Na frente do zumbi de alvenaria se encontra uma espécie de lápide. "Aqui jaz o armazém Vai ou Racha" é o que diz a placa em outras palavras mais formais e informativas sobre história do local. Um memento como reparação pelo crime cometido dizendo “matei esse lugar, mas respeito sua memória”. O fato é que elas só existem pois provavelmente a existência da placa faz parte de alguma regulamentação do governo em relação a demolição de edifícios antigos, como quando uma grande empresa quer construir um prédio em uma área inadequada para seu tipo de construção e como reparação tem que plantar algumas árvores. Em suma, essas são palavras de quem finge que se importa.

O que seus assassinos não levaram em consideração é que esse prédio tinha família, tinha amigos e uma amante, a pobre Praça São Francisco. Dependia dos botecos que o prédio abrigou ao longo de sua vida, para movimentar o seu uso. Por lá pessoas dividiam sua alegria, faziam arte, teatro de rua, enchiam o local com o que uma praça deveria ser cheia, pessoas. Que tipo de uso uma farmácia oferece a uma praça vizinha? Claro vou comprar meus antidepressivos e ir à praça tomá-los, dividir com um amigo talvez. Não acontece no mundo real. Mas essa é só uma brincadeira. Seria muita ingenuidade sequer especular que a Cidade Genérica se importa com a vida urbana, bem-estar, segurança, ou qualquer outra pauta que leve em consideração o ser humano e não a especulação.

A Praça continua viva fisicamente, porém solitária, abandonada, vazia, talvez pensando "porque não me levou com você?". Olhando assim, a vida após a morte do Vai ou Racha parece menos triste do que a atual vida da Praça São Francisco. Como um canteiro de avenida, a praça se tornou um simples vazio entre a circulação de automóveis. Mas afinal, não é esse o uso ideal para a cidade mercadoria? A cidade da Hilux, Campo Grande, Mato Grosso do Sul, é um espaço que cresce sem levar em conta a existência de indivíduos no processo. Tudo o que importa é o valor daquele lugar para o mercado. Campo Grande, como bem descrita no artigo Direito ao Uso, parece amar o desuso do espaço público e a adoração da propriedade privada. O clássico "não pise na minha grama" americano traduzido para o interior do quintal do capitalismo, em um casamento entre a ideologia neoliberal e a lógica interiorana latifundiária.

Entretanto, nosso assunto é muito mais sobrenatural. Para isso trago o filme "O fenômeno" (Poltergeist, 1982) do diretor Tobe Hooper (3), no qual uma família é aterrorizada por vários eventos sobrenaturais em sua residência. Mais tarde a família descobre que dentro da casa, no plano sobrenatural, vive uma espécie de besta. Essa besta surgiu como efeito do subúrbio, onde eles vivem, ter sido construído sobre um antigo cemitério. A construtora que o destruiu removeu apenas as suas lápides, deixando para trás os corpos dos mortos ali enterrados. Pelo fim do filme os eventos culminam numa autodestruição da residência e do subúrbio, com corpos emergindo do solo sem parar. Analisando essa narrativa sobre a luz de nossa pequena mitologia sobre o pós-vida dos lugares, pode-se afirmar que o subúrbio do filme de Hooper, e o era o corpo pós-vida que a construtora impôs ao cemitério. A alma do lugar destruído, como em revolta, rejeita esse novo corpo, se transformando na besta e por fim se auto destruindo, alcançando finalmente a sua morte. Um descanso.

Uma ideia semelhante é abordada por Juliana Rojas (4) em seu musical Sinfonia da Necrópole (2014), em que durante a modernização de um cemitério, de necessidade questionável, Deodato, um aprendiz de coveiro torna-se responsável pela catalogação das covas, separando as abandonadas, que poderão dar lugar a sepulturas verticalizadas das ocupadas e que deveriam ser deixadas intactas. Durante o processo, Deodato descobre que na prática a reforma não se importou com a classificação das covas e muitas sepulturas que tinham dono foram destruídas. Mais uma vez, o sobrenatural emerge em resposta a essa afronta. O filme de Rojas faz claras referências ao avanço da cidade neoliberal, tanto nas sepulturas verticalizadas, quanto nas publicidades do "novo cemitério" que lembram muito propagandas clichês de condomínios residenciais de luxo.

A catástrofe, a assombração, o monstro, costumam ser encaradas pelo terror como algo externo, em uma abordagem, de certa forma, reacionária. Segue-se a estrutura: existe uma ordem. Surge um monstro. Os heróis da história precisam derrotar essa criatura ou desvendar um mistério, para restaurar a ordem do estado das coisas. Em "O fenômeno" e "Sinfonia da Necrópole" (pode-se citar também "Hellraiser" de 1987) entretanto, a força sobrenatural perigosa é enviada, justamente, como consequência das ações humanas. Sendo assim, esse tipo de abordagem - do humano ou da cobiça humana - da empresa que viola um lugar como um cemitério em prol do avanço de seus negócios, nos oferece um panorama de reflexão sobre nosso tema.

Os problemas das cidades, geralmente, são como essas ameaças de "O fenômeno" ou os mortos vivos de Juliana Rojas, causados por um olhar que enxerga a realidade urbana apenas como uma forma de lucro. A revolta ou o retorno dos mortos é algo que parece muito temido pelo coletivo, talvez tenhamos algumas contas a prestar. Infelizmente a realidade é um pouco menos esperançosa que a fantasia do horror em que um espaço, como o finado Armazém Vai ou Racha poderia protestar, como fez a casa de "O fenômeno". Resta a quem vê o espaço urbano como um espaço comum, não o terreno para o jogo do mercado imobiliário. E muito menos a propriedade privada do Estado. Mas, o nosso espaço, o espaço de todos exercer a sua revolta.

(1) Jane Jacobs, foi uma escritora e ativista política americana com atuação no Canadá. Seu livro mais famoso, e um divisor de águas no estudo do Urbanismo "Morte e vidas de grandes cidades"(1961) inspirou o título desse breve ensaio.
(2) Rem Koolhaas, uma das estrelas do mercado arquitetônico mundial, que, ironicamente, também é teórico da Arquitetura e Urbanismo, problematizando em seu trabalho a morte da autoria na arquitetura e o avanço da cidade neoliberal e da globalização.
(3) Tobe Hooper, diretor de cinema e TV americano, foi um dos maiores expoentes do horror. É mais conhecido pelo filme "O Massacre da Serra Elétrica" de 1974.
(4) Juliana Rojas, diretora de cinema brasileira em ascensão. Seu trabalho costuma enxergar o horror como uma forma de discutir problemas da sociedade brasileira.

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Eduardo Azevedo
Mais conhecido como "Dudu". Desenha desde que se entende por gente.Quase formado em Arquitetura e Urbanismo pela UFMS, nunca quis ser arquiteto. Encontrou, porém, no espaço urbano um jeito de entender o mundo. No Coletivo Labor é responsável pela direção de criação e comunicação visual. Também cuida da organização e curadoria do Co-Laboratório e de vez em quando dá uns pitacos no Co-Fab.
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