Rua Aarão Reis, Santa Teresa, RJ

Um conto de Henrique Komatsu

Existem lugares-comuns? Ou existem apenas olhares-comuns? O conto "Rua Aarão Reis, Santa Teresa, RJ" é essa breve narrativa sobre os lugares-comuns na literatura, nas conversas, nas pessoas e nas perspectivas de vida. É um conto que busca explorar a ideia de que, para sairmos de um lugar-comum não precisamos mudar o lugar, mas o olhar. E que para mudar o olhar, precisamos do olhar do outro, da companhia, da amizade e do afeto. Acho que toda pessoa que se arrisca a escrever, uma hora ou outra, tem que lidar com seus lugares-comuns.

Rua Aarão Reis, Santa Teresa, RJ

Henrique Komatsu

Sentado na calçada da rua Aarão Reis, no morro de Santa Teresa, cabeça enfiada no meio dos joelhos frios, não percebeu a saída das pessoas da casa, nem o cessar das violas e da percussão. Pensava na transposição do Rio São Francisco, na pele que deslizava por cima do osso da patela, no tamanho da Palestina, no desgaste do paralelepípedo que tinha debaixo dos pés, na Rebelião dos Tártaros, quando Elisa sentou ao seu lado. Elisa tinha cheiro de cânfora, a qualquer hora. E porque ela tinha cheiro de cânfora e porque ela sabia que tinha cheiro de cânfora, Elisa sentia que não precisava dizer palavra ao chegar perto das pessoas. Ela agia como se o aroma operasse como um prelúdio de prosa que dava início ao teatro social. E como sabia que Elisa manejava a sua fragrância dessa forma, sem tirar a cabeça dentre os joelhos, José apenas respirou fundo, fundo o suficiente para que o ar reverberasse em som e Elisa soubesse que ele sabia que ela estava ali, que o cheiro de cânfora entrara no campo dos seus sentidos e que um diálogo havia se iniciado entre os dois. Elisa tinha uma taça de vinho nas mãos e enfiou-a por entre as pernas de José, oferecendo-lhe um outro odor. A uva fermentada misturou-se à cânfora. José ergueu a cabeça e pegou a taça, indo pelo rumo da prosa puxada por Elisa. Deu-se conta de que já não havia movimento na calçada, que a festa já terminara e que Elisa, por alguma razão, havia pintado – mal – meia cara de palhaço no próprio rosto e não queria falar sobre o assunto. José bebeu um pouco do vinho, mirou de novo a metade da cara de palhaço mal acabada, baixou a cabeça e, fazendo bico com os lábios, deixou que o líquido escorresse, como um fio, dentro do vão entre os paralelepípedos. Elisa pegou a taça de volta. Viram o BNegão andando pesado, com uma mochila nas costas, na outra margem da rua. José lembrou que já o tinha visto uma vez no bondinho de Santa Teresa, com a mesma mochila. O bonde estava desativado há dois meses. Começou a pensar no poema de Drummond, mas achou o pensamento literal demais, tedioso demais, óbvio demais e enfiou a cabeça entre os joelhos. Só que nesse instante Elisa começou a declamar o verso que José coincidentemente havia acabado de pensar e havia censurado pela tediosa redundância com a realidade: “A festa acabou, a lu...”. José soltou um bufar de enfado e, sem tirá-la do meio das pernas, chacoalhou a cabeça em desaprovação, o que interrompeu Elisa. Veio um breve silêncio e José sentiu algo molhado escorrer-lhe pelo couro cabeludo e o pescoço. Era Elisa que se vingava da censura vertendo um choro de vinho na parte do corpo de José que manifestara a intolerância. José ergueu a cabeça limpando o excesso de líquido preso entre os cabelos e fitou Elisa com indignação. Sem desviar o olhar, sem piscar, Elisa disse lentamente – a face cindida pela maquiagem de palhaço –, articulando cada sílaba com todos os músculos do rosto, os lábios fazendo ver os dentes e a língua batendo no palato: “A festa acabou, a luz apagou, o bonde não veio. E agora, José?”. A indignação de José passou. Não porque tivesse desculpado Elisa pelo vinho derramado, mas porque o verso dito daquela maneira, com escárnio, provocativo, por um rosto dividido, perdera a literalidade, perdera a obviedade que o frustrara diante do enfado do transcorrer da noite. Só mesmo Elisa. Quis rir de satisfação, mas não era o momento. Quis beijar Elisa, mas não podia. Elisa o olhava como se soubesse o que lhe ia na cabeça; que estava contente com o jeito como declamou as palavras, escapando do desgastado do verso, que queria sorrir, mas por amor a Elisa não o fez, que queria beijá-la. Elisa bebeu o último gole da taça. José lembrou-se de BNegão andando com a mochila nas costas e do bonde desativado de Santa Teresa. Saiu da casa já sem festa uma mulher feliz da vida, com chapéu de palha e xale de seda, e deixou ao lado de Elisa uma garrafa de vinho, entregando a José uma taça limpa. A mulher tinha cheiro de incenso e o queixo sujo de tinta branca. Pediu-lhes que deixassem as taças em cima do muro quando fossem embora, pois ia fechar o portão, e voltou para dentro da casa assobiando uma melodia cubana. Há gente de bem nesse mundo. A cena deixou o ar mais leve sobre a calçada, sobre os paralelepípedos. Elisa serviu o vinho aos dois. Enquanto enchia as taças sussurrou os versos de Drummon: “e agora José?/Está sem mulher/está sem discurso/está sem carinho”. Já sabia que José daria de ombros. Já sabia que ele censurava o óbvio. Quando ouviu a respiração reverberar de enfado acompanhada de um leve balançar da cabeça suja de vinho, Elisa aproximou-se, pousou a mão esquerda sobre o joelho direito que até então só amparara a têmpora de José e deu-lhe um beijo-riso. Os lábios suaves, as mucosas úmidas, os dentes lubrificados, o cheiro de vinho que vinha de dentro da boca de Elisa, a mão quente sobre o joelho frio; mais uma vez a declamação de Elisa fez sumir a trivialidade dos versos que embalavam a conversa que vinham tendo sobre a noite que viviam.

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Henrique Komatsu
Henrique Komatsu é formado em Filosofia (UFPR) e Direito (UFMS). Publicou pela editora Confraria do Vento o livro infantil A Menina que viu Deus e o livro de contos Ototo. Em 2019 teve o ensaio Dead Time traduzido e publicado na revista literária Manoa da Universidade do Havaí/EUA em volume dedicado à literatura brasileira contemporânea. Contribuiu para a Revista Torquato, com tradução de April Ayers Lawson, e para as revistas Contemporary Brazilian Short Stories e Revista Desordem, com contos.
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